O aborto de repetição, quando uma mulher sofre duas ou mais perdas gestacionais, não é apenas uma experiência física. É, sobretudo, uma vivência profundamente emocional e simbólica. Cada perda pode ser sentida como uma ferida na alma, que reabre antigas dores e fragiliza o vínculo com a esperança de ser mãe.
O inconsciente é um espaço vivo, que guarda símbolos, medos e desejos profundos. A gravidez e a maternidade estão ligadas ao arquétipo da Grande Mãe, que representa a capacidade de gerar, nutrir e dar continuidade à vida. Quando o ciclo da gestação é interrompido repetidas vezes, essa energia criadora pode se desequilibrar, gerando sentimentos de culpa, fracasso, impotência e até desconfiança do próprio corpo.
Muitas mulheres descrevem uma sensação de “vazio interno” ou “corpo que falha”, como se tivessem perdido não apenas um bebê, mas uma parte de si mesmas. O inconsciente pode reagir tentando proteger a mulher da dor, levando-a ao isolamento emocional, à negação do sofrimento ou à racionalização excessiva, mecanismos de defesa que, a longo prazo, impedem o verdadeiro processo de cura.
É importante compreender que o aborto de repetição não é culpa da mulher. Existem causas físicas, genéticas, hormonais ou imunológicas que podem estar por trás das perdas. No entanto, o corpo e a psique são inseparáveis: o sofrimento emocional pode intensificar desequilíbrios hormonais, afetar o sono, a alimentação e até a fertilidade.
Na jornada de recuperação, o primeiro passo é dar lugar ao luto. Cada perda precisa ser reconhecida e simbolizada, por meio de palavras, rituais, cartas ou terapia. Negar a dor é manter o inconsciente preso ao trauma. A psicoterapia pode ajudar a mulher (e o casal) a dar sentido à experiência, compreender o que está sendo simbolicamente pedido pela vida e reconectar-se com o princípio criador dentro de si.
Com o tempo e o acolhimento adequado, a mulher pode transformar o sofrimento em sabedoria e autoconhecimento. Em vez de carregar a culpa, ela passa a reconhecer sua força e sua capacidade de renascer, porque, assim como a vida, a psique também se renova em ciclos.
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