Quando a infância é violada por quem deveria proteger

  Atendo muitas mulheres que chegam até mim para falar sobre o difícil caminho da infertilidade. Mas, com o tempo e com o cuidado que a terapia proporciona, vamos descobrindo que, por trás da dor presente, existem feridas antigas. Muitas dessas feridas têm raízes na infância, em experiências de abuso sexual que deixaram marcas profundas e silenciosas.

  O que mais me dói é perceber que, na maioria dos casos, o abusador era alguém próximo: um pai, um avô, um tio, um irmão, um vizinho. Alguém em quem aquela criança confiava. E o que deveria ser um porto seguro, a família, se torna muitas vezes, um lugar de silêncio e negligência.

  Não é raro ouvir relatos de meninas que, ao contarem o que aconteceu, foram desacreditadas. Ou pior: ignoradas. Algumas foram chamadas de mentirosas, outras ouviram que “era coisa da cabeça delas”. E tantas, tantas mesmo, sentiram na pele o peso de ver seus cuidadores protegerem o abusador, em vez de protegerem a criança.

  Essas experiências não desaparecem com o tempo. Elas se escondem, mas continuam vivas dentro do corpo e da mente. Muitas vezes, voltam a se manifestar na forma de ansiedade, baixa autoestima, dificuldade de confiar, problemas nos relacionamentos e até no desejo ou possibilidade de gerar filhos.

  É importante dizer: a culpa nunca foi sua. Nenhuma criança tem culpa de ter sido abusada. Nenhuma criança mente sobre algo assim. E nenhuma criança deveria crescer com o fardo de ter sido desacreditada por quem deveria protegê-la.

  Se você passou por algo parecido, eu quero que saiba: você não está sozinha. Existe um caminho possível de reconstrução, mesmo que doloroso. A sua dor é legítima, a sua história importa, e há espaço, na terapia, na escuta sensível, para você se sentir acolhida e segura, talvez pela primeira vez.

  A ferida do abuso é profunda, mas com amor, escuta e cuidado, é possível transformá-la. Você não é apenas o que te aconteceu. Você é força, é coragem, é vida que insiste em florescer, mesmo depois de tanta escuridão.

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